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Tuesday, February 24, 2004

Dando cena às coisas que me deixam com a poesia à flor da pele e que espancam o meu tédio, vejamos algo do Drummond, quero colocar em negrito aquilo que me faz ter certeza que o mundo nunca vai passar de um teste mal feito...

Os ombros suportam o mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossege
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.



Brinquedos

Hoje brinquei de esquina
e fui caminhando os quarteirões...
Os tijolos estavam quietos,
quase lúgubres...
Os canteiros exibiam
uma rosa solitária,
a mesma rosa que povoou
minha infância.

Hoje brinquei de tempo
e de pessoas mais velhas...
e passei tão rápido,
que não consegui ver os amores
que bordaram toda aquela esquina...
não consegui ver os senhores
que perderam-se na jogatina...

Hoje brinquei de memória
e ainda não consumi os meus próprios dedos...
continuei no cairel dos sonhos
afagando os nímios detalhes
que o homem antigo esqueceu de lapidar...
Pois é assim que constrói-se
a cerca da história,
e assim que faz-se o não-acabar...

Hoje brinquei de esquina
e foi ali que veio o tempo
e no tempo perdeu-se o canto
que foi-se com espanto
por causa da memória...

Friday, February 20, 2004

Vão da palavra

Tem pouco de mim nesse prato...
alguns adornos que me enfeitam
enquanto tento digerir.
Não são muitas as horas
que já tentaram chorar por mim,
não são muitas elas que me abraçam.
O mar é tão denso e famélico
que consome os barquinhos com os quais sonhei...
O azul do oceano nunca pareceu tão morto,
a areia, nunca tão ríspida e fatiada,
pra numa desistência,
deixar-me cair com ela
no fundo vão da palavra

Wednesday, February 18, 2004

Guarda-chuva

Os suaves
de uma capa fina,
estremecem ao meio da rua
com o cair das gotas,
e produzem rimas
nas mentes escritoras...
São círculos em carrossel
que se deslocam num mundo a rodar
entre mãos desnudas e tristes
desenhando círculos em meio ao ar.

Quem os vê daqui de cima
perde a noção do perigo
e se esgueira ao parapeito pouco ereto
só pra ver a cidade que se acaba em concreto
desabar num tremendo colorido...




Tuesday, February 17, 2004

Findo o dia

Fim da cidade
Que aguarda
A chuva fina
No fim do dia

Finda a cidade

A cidade em que habito, aguarda a chuva fina no fim do dia.





Sunday, February 15, 2004

E talvez porque
Meu abrigo
Não seja o que
Tua calma procura e
Talvez porque distante
É o momento
Que conduz
A certeza
de que
A possibilidade
Desse gesto
Não passa de
Uma ferida aberta
Aqui na noite
Azul que silencia
O tudo agora
Que em sonho
Já me fez feliz
Eu tentei você
Que percebeu
Minha vontade
E sorriu
Porque distantes
Eram os teus dias mas
Eu tentei essa vontade
Porque será sempre
Minha
E será sempre
Vontade
Em vão
Não sei
Talvez porque
Minha voz
Ainda tenha
Um tom certo
De soluço
Fotografia em preto-e-branco

Um homem sem passado,
vestígios coloridos,
todos discutem o fardo
de alguns dos seus melhores amigos

Elisabeth casou,
Matheus teve dois filhos,
Elisa separou,
Tarcísio pede abrigo...

Com tintas borradas,
ele pinta em preto e branco,
as histórias ditadas
na parede do edifício...
Quantas fotos se perderam
já não se lembra
e torna-se passado com a tinta preta
que desenha alguns vestígios
na borda que consome o medo

Desnudo, ali,
segue o rumo de artista
Deflete curvas prá pintar em si
aquilo que um dia ele queria
O tudo-velho segue apenas decorado
Agradece a nímia gentileza,
mas chora por não lembrar
e não haver fotos de sua vida inteira...
A pintura é falsificada
Traça seus contornos em meio ao desenho
como um suave parvenu
que beira uma sociedade civilizada
que destila o âmago e o cru...
Pertencer,
se houvesse verbo a ser pintado
seria este talvez,
pois se houvesse pertencido
o quadro não se faria preto-e-branco,
e seria colorido...




Thursday, February 12, 2004

"O mar se vai
o mar de sono se esvai
Como se diz: o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites
Inútil o apanhado
da mútua dor mútua quota de dano"

( maiakóvski )

Wednesday, February 11, 2004

E o tempo tomou forma. Assim me soube
Envolta em grande mar até a cintura
E nada a não ser água e seu rumor
Aos ouvidos chegava. E soube ainda
Que um só gesto e sopro acrescentava
Essa vastíssima matéria. E atenta
Em consideração a mim, cobri-me de recuos.
Eu, que de docilidade me fizera.

Antes avara desse tempo que resta.
Se em muitos me perdi, uma que sou
É argamassa e pedra. Guardo-te a ti.
Em consideração a mim. Redescoberta.

[ Hilda Hilst ]
E eu ouço o som de um abraço enquanto as mãos abrigam palavras no peito...
Pensador

Pensa a dor como uma lápide
que se esgueira e toma forma,
mas ali que a morte habita...

Me definho pra entender
os fractais do subconsciente
e dar sentido aos haver-reticências
mesmo que elas causem a hispidez
que não me causa uma noite
de extrema sensualidade

E vir por meio da essência homilética
atropelar as redundâncias,
pois se pensa a dor, como quem
despe as vestes de crenças,
e arremata os dogmas
aos que se estendem por poucas visões...
No crer que o pensar
é um ato destrutivo e consumista,
egocêntrico e cético,
tendo por si só o esquecimento,
que se afoga na sensação inefável
e irreversível:
a do ato previsto.

Os novos sermões ,
que se estendem às pessoas ignotas,
que jamais farão parte da consciência sã,
ainda captam o rumo dos fulustrecos
que se esgueiram para ter um nome pronunciado à cena vã...
E desperdício de conteúdo,
assim como forma,
parece triste...

Ainda virão seres antigos,
pensar e definhar a dor,
consumindo nos papéis
o que as horas não ensinam...

Monday, February 09, 2004

Verborragias

Não quero servir de tinta
para corrigir ortografias...
Quero ser uma palavra
desta sutil verborragia!

Quero ser o âmago da história
o centro da poesia,
a crina do cavalo-de-tróia,
o rei de alguma dinastia.

Quero ser no fundo nada,
que no nada encontra o vão,
quero ser uma muralha,
ou um antigo batalhão.

Quero ser também a morte
e a vontade de escrever
pra quem sabe venha a sorte
num momento me entreter

Quero sim servir de tinta
e corrigir hemorragias
porque de muito sangra a pena
pra escrever verborragias


Sunday, February 08, 2004

Diálogo
( Cecília Meireles )

Minhas palavras são a metade de um diálogo
obscuro continuando através de séculos impossíveis.

Agora compreendo o sentido e a ressonância
que também trazes de tão longe em tua voz.

Nossas perguntas e resposta se reconhecem
como os olhos dentro dos espelhos.

Olhos que choraram. Conversamos dos dois extremos da noite,
como de praias opostas. Mas com uma voz que não se importa...

E um mar de estrelas se balança entre o meu pensamento e o teu.
Mas um mar sem viagens.

as tardes de densos ares sufocavam a cor de minha alegria...
[a pele de meus sentidos simplesmente existia]

mas houve um dia em que as chuvas recortaram a pálida melancolia...
[ teu nome transformou os ares noturnos em sublime epifania]


Saturday, February 07, 2004

cultivo versos em tuas esquinas...
e desafino.
tão fácil me perder nas paredes finas do teu abrigo...

os seus olhos têm para mim cidades inteiras

e eu só queria que certas fossem as palavras que interceptam o caminho...
Crianças beiradas ao mar

Espero um começo
e deixo livre o fim...
Já não perguntaram se as crianças querem sair.
Aquelas crianças da beira da praia
são como estacas que se movem fincadas à areia:
o vento não faz a mínima diferença,
movem-se controladas pelo anseio
e o anseio as livra do destino...
Não saberão,
talvez, dos pensadores que rondam a terra.
Não saberão,
jamais, que alguém as espia
e contorna seus movimentos
num beijo que abstem o lábio
no ínterim das fantasias...
Jamais saberão que daquelas areias,
mesmo não escaldantes,
de um dia frio,
surgirão seres outrora desconhecidos
que virão testar a sublimidade dos pés...
Corram!
As crianças beiradas ao mar
são invisíveis,
qualquer olho arguto
não seria capaz de perceber
que na astúcia das ondas
as crianças devoram
o não-ser,
e simplesmente se esquecem.
O existir é um fardo
nos sonhos de um adulto,
e um tátil confronto
nos pesadelos de uma criança...
o verdadeiro permanecer, traduz-se na calma das manhãs do teu sorriso...

Thursday, February 05, 2004

Afasta de mim esta dor
leva contigo minha foto...
o autógrafo está por um fio
pendente nas lágrimas
que teu peito deixou
Perto de ti sou ínfimo
no desfiladeiro exíguo da memória
você sepulta meu nome
e colore meu chão.
Pinta e borra
e chama de arte
as tragédias que um dia exauri...
Cala-te,
concentra-te
nas palavras que escrevo
elas são mais que pétalas
valiosas,
mais que cenas lamuriosas:
são o que existo e o vivo que sou!


"Multidão escura, estranha...
Lá onde deixei o estar feliz;
Por sobre as pegadas, que pareciam suas...
Ali, no corredor, entupido de passos,
Vazio de almas e sentidos...
Relembro então o dia; o claro instante
Em que sua voz ressoava
E sobrepujava o frenesi circundante..."


... e o esquecer aos poucos toma a forma de uma névoa calma e imperceptível.

"Tu nao sabes que hauristes uma parte de mim... e sorris como quem peca..."

Palavras que dilaceram qualquer obviedade... sutis verborragias...

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